Quero falar de uma árvore de 25 anos

“O único evangelho que muitas pessoas vão

ter é nosso exemplo de vida”.

(D. Helder Câmara)

 

 

Por Raquel Pulita Andrade Silva[1][1].

        Hoje quando parei para escrever esse texto, fiquei pensando qual símbolo me faz recordar o Dia Nacional da Juventude... Em poucos segundos veio a inspiração: uma árvore! Sim, uma árvore, talvez vocês se perguntem o porquê dessa árvore...

         Em vários espaços e momentos de minha vivência comunitária e pastoral, me via impressionada com alguns tipos de árvores... Por exemplo, quando fui escolhida secretária regional da PJ do Rio Grande do Sul e sai de Caxias do Sul para morar em Porto Alegre, fixei residência numa casa da juventude chamada Instituto de Pastoral de Juventude, o IPJ de POA.

 

            Quando cheguei naquela enorme casa, no bairro Três Figueiras, que fui apresentada ao quarto onde eu “moraria”, vi que daquela grande janela poderia ficar saboreando a imagem do Flamboyant[2][2] que nos recebia naquela casa. Aquela árvore para mim significa vida de juventude... Ali era espaço para conversar, para dar risada, para confessar...

            Nesse mesmo período de missão viajei muito pelo interior do Rio Grande do Sul. Naquelas estradas seguindo ao litoral ou seguindo para a campanha[3][3], achava linda a tal da Figueira, uma árvore grande, histórica, e que em muitas paisagens aparecia sozinha... de outras árvores, pois lá estavam pássaros, lagoas, pessoas...

            Falar de Dia Nacional da Juventude é falar do colorido do flamboyant que floresce todo ano, é falar da grandiosidade da figueira, é falar da vida, da seiva, do sentido de comunidade que se forma em torno desse tronco que dá a vida. É falar também do Ipê... Que floresce quando a gente acha que tudo está seco, sem vida... Aí aparece ele, com sua simplicidade em flor colorida... É a vida da juventude que brota em meio a tanta dor e sofrimento...

            Meu primeiro DNJ foi em 1992, lá no Santuário de N. Sra. de Caravaggio, no município de Farroupilha, diocese de Caxias do Sul e eu ajudei naquele ano a equipe de finanças do tal encontro... Depois desse momento vários grupos de jovens surgiram na diocese e aos poucos fomos retomando a história da PJ naquele local. Imaginem que o lema desse ano foi: “Ouça o ECO(logia) da Vida”. Tudo a ver com a árvore da vida...

 Em 1996, realizamos o DNJ interdiocesano, em Canela, diocese de Novo Hamburgo, momento ímpar em minha caminhada de Pastoral da Juventude. Lá reunimos em torno de 13 mil jovens... Gente contente, das três dioceses: Caxias do Sul, Porto Alegre e Novo Hamburgo. “Quero ver o novo no poder”. Foi bonito, acordar cedinho, ainda madrugada, para ver as caravanas que chegavam ao Parque, no meio de tantas árvores, faixas e bandeiras eram penduradas... A juventude feliz celebrando mais um dia.

Depois desse encontro, todo o ano era uma preparação incrível... Lembro-me de outro momento, já na coordenação regional da PJ, em 1998, quando realizamos o Encontrão de Jovens, na diocese de Santa Cruz do Sul, onde reunimos, segundo a Polícia Militar, em torno de 56 mil jovens. Um processo muito lindo onde fizemos missões jovens em preparação ao DNJ, gravamos músicas específicas da Pastoral da Juventude, preparamos três grandes cenários, em ginásios, apresentando as realidades das Pastorais da Juventude... Uma celebração bonita, abençoada pela chuva que caiu naqueles dias. Dormíamos pouco, tudo era motivo para nos reunirmos e resolver os problemas em grupo. Foi lindo demais... “Nas asas da Esperança gestamos a mudança”.

             Em 1999, realizamos o DNJ diocesano, em Caxias do Sul, e lembro-me perfeitamente da preocupação que tínhamos com aquele encontro. Dom Nei Paulo Moreto, bispo diocesano, passou por mim naquele dia e me disse: “não se preocupe Raquel, vocês estão transmitindo a esses jovens o que eles querem, mas também o que eles precisam”. Aquele abraço amigo, andar com ele pelos pavilhões da Festa da Uva, sorrindo e feliz com o encontro, deu mais certeza de que nossa missão continuava. “Vida em Plenitude, Trabalho pra Juventude”.

             Lembro-me que estávamos em preparação do DNJ interdiocesano no ano de 2000... Eu já como secretária regional da PJ, na sexta-feira que antecedia o encontro em Montenegro, fui avisada que minha avó materna havia falecido. Imediatamente viajei para Garibaldi, onde ela morava com um de meus tios e lá acompanhamos a sua despedida. Lembro-me que na noite que voltei a Porto Alegre, para que na manhãzinha fosse para Montenegro, recordei-me de uma das mais lindas frases que gostava de rezar com a vó Angélica: “não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês”... e com essa motivação, dos 93 anos de minha avó, assim como aquela figueira da estrada, refleti naquele dia com os jovens sobre “Jubileu da Terra, um Sopro de Vida”.

             Celebrar esses 25 anos é lembrar-se de muita gente, de muito sorriso, de muito colorido, de muito trabalho... É lembrar-se de contratos, de prestação de contas... É trazer na memória as discussões sobre onde aconteceria o DNJ, se os bispos apoiariam... É trazer o encontro e o reencontro... É falar da motivação, é falar dos grupos de jovens... É falar de vida, de felicidade... É sonhar com um mundo melhor, com mais justiça e dignidade...

             Celebrar os 25 anos do Dia Nacional da Juventude é celebrar a juventude brasileira. É viver com os jovens o que há de mais sagrado. É viver a história de novo, como um filme que passa em nossas cabeças. É falar de amor, é falar de fé. É ser seguidor/a de um Jesus Cristo vivo e justo. É saborear da comunidade perfeita. É ser Igreja Jovem!

             Hoje quando eu voltava para casa, depois de um dia de trabalho, sentia junto com a brisa que passa nessas terras do cerrado, apresentando a chuva, o cheiro da manga, em fruto no pé... E aqui a gente encontra muita... Na rua! Simples... Assim como os ipês vão florindo e sorrindo os caminhos, as mangueiras vão sugerindo sombra num chão seco. Assim são os jovens, vão aparecendo devagar, de repente estão em grupos, em vários grupos, falando de suas belezas e dores... Sugerindo flor e fruto... E os flamboyants e as figueiras vão crescendo e contando histórias, como aquelas que contaram embaixo de suas sombras...

             Obrigada Senhor, pela caminhada feita até agora. Que o Senhor possa nos conduzir por muito mais tempo, defendendo a vida da juventude.

            Que a árvore frondosa que Tu és em nosso caminho, Jesus de Nazaré, possa continuar florescendo e frutificando na vida de tantos outros jovens e adultos.



[1][1] Raquel gosta de margaridas. É filha de Orpheo e Leda. Casada com Joaquim Alberto (o Quim). Formada em Relações Públicas, pós-graduada em Adolescência e Juventude Contemporânea (Unisinos) e em Democracia Participativa (UFMG). Hoje é analista pastoral da Província Marista Brasil Centro Norte e compõe a Comissão Nacional de Assessores/as da PJ. Residente em Taguatinga/DF. Esse texto foi escrito em 22 de outubro de 2010.

[2][2] Flamboyant é uma árvore com muita copa, bastante bonita, com flores avermelhadas. É conhecida também como flor do paraíso ou pau-rosa, é da família das leguminosas.

[3][3] Campanha são os campos, por oposição à cidade. Campo extenso, planície.

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